Relato completo da ultramaratona BR135 (55 milhas) no Caminho da Fé: percurso, dificuldades, apoio, estratégia, alimentação e dicas para quem quer fazer essa travessia a partir de Águas da Prata.
Quando a gente fala em ultramaratona, muita gente pensa em um lugar distante, selvagem, isolado. Só que a BR135 tem um jeito muito próprio de ser difícil. Ela acontece em um território que mistura estrada de terra, cidade pequena, rural, montanha e muita história.
E o mais curioso é que esse território é familiar para muita gente. Não só para atletas, mas também para quem conhece o Caminho da Fé, já que parte do percurso cruza trechos dele. Eu fiz a distância menor, 55 milhas, que no meu caso virou 93km, largando em Águas da Prata e chegando em Inconfidentes, passando por 5 cidades.
E vou te falar uma coisa: ser “perto” não deixa mais fácil. Às vezes, é justamente isso que engana.
Eu gosto de pensar que ultra não é sobre ser forte o tempo inteiro. Ultra é sobre responder bem quando as coisas mudam.
Eu treinei, planejei, organizei apoio, estudei o percurso, pensei na logística do carro, tentei prever tudo o que dava. Ainda assim, a BR135 me lembrou algo que eu já sabia, mas que só a prática reforça:
Você controla o treino.
Você controla parte do plano.
Mas não controla o corpo funcionando por horas e horas.
No começo eu me senti bem. Ritmo controlado, cabeça no lugar, estratégia funcionando. Eu sabia que seria longo e que a parte final cobraria caro, então eu segui no meu “seguro”.
Até o km 70, tudo caminhava.
No km 70… virou outra história.
Eu vomitei 7 vezes.
A partir dali meu estômago começou a doer muito e eu simplesmente não consegui mais correr.
O mais estranho foi sentir que, de pernas, eu até conseguiria trotar. Só que forçar o estômago doía. E aí entra uma parte da ultra que não dá para explicar direito para quem nunca viveu: você começa a negociar com você mesma.
Eu caminhei cerca de 20km.
E eu sei que muita gente pensa “caminhar é quebrar”, mas a verdade é outra. Caminhar, nesse tipo de prova, pode ser estratégia. Pode ser inteligência. Pode ser sobrevivência. Nesse trecho, o que me levou foi a cabeça.
E mesmo com esse caos, eu terminei. E terminei feliz. Porque foi um dia grande demais para ser reduzido a um trecho ruim.
A BR135 é muito conhecida pela distância principal, a famosa BR135 (135 milhas), mas existem formatos em que dá para fazer distâncias menores. Foi o meu caso.
O terreno é bem misto. Você encontra:
Ou seja: ela não é só física. Ela é mental, logística e disciplina.
Essa prova permite carro de apoio e também ter alguém correndo com você em alguns trechos, se quiser. No meu caso, tudo que eu precisava estava no carro, e isso muda completamente a experiência.
E aqui tem uma nuance importante. A prova é sua. O esforço é seu. A decisão de continuar é sua.
Mas o apoio sustenta o entorno. E quando seu corpo começa a falhar, ter um entorno firme faz muita diferença.
Minha equipe foi impecável. Organização, logística, leitura do momento, presença. E também teve leveza: risada, conversa no meio do nada, troca com outros carros e corredores. Esse clima de prova longa é diferente. Tem muita humanidade no caminho.
Algumas coisas que funcionaram para mim e que eu levaria para qualquer ultra:
Você vai mudar o plano.
Não é “se”. É “quando”.
Então vá com:
Parece detalhe, mas não é. Em ultra, você cansa também de decidir.
Organizar o carro em caixas separadas ajuda muito:
Muita gente treina só correndo. Só que prova longa tem caminhada. Então caminhar bem também é performance.
Não trate frio, vento ou escuro como detalhe. Pense em como você vai reagir quando a temperatura cair e você já estiver com muitas horas acumuladas.
O que aconteceu comigo não é raro. Ultra mexe com o sistema digestivo. E quando o estômago desorganiza, vira um problemão.
Algumas causas comuns:
Eu não vou fingir que tenho resposta perfeita para isso, porque cada corpo é um corpo. Mas uma coisa é quase universal: quando dá errado, voltar para o básico ajuda.
Água. Eletrólitos. Simplicidade.
Vale. Muito. Por causa do caminho. Por causa das pessoas. Pelo território. Pelo tipo de dificuldade. E porque é um jeito de atravessar o Sul de Minas de um jeito que não dá para atravessar de carro.
E mais: é um tipo de prova que te faz pensar. Não só sobre esporte, mas sobre vida. Sobre controle. Sobre presença. Sobre seguir com o que tem.
Essa BR135 (55 milhas) foi minha primeira prova longa nesse estilo, com travessia, logística, apoio e adaptação em tempo real.
Eu terminei cansada e muito grata. E com uma certeza que eu gosto de repetir:
Longas distâncias não premiam o perfeito. Elas premiam o constante.
E se você está pensando em fazer essa prova, aqui vai meu conselho mais honesto: treine o corpo, sim. Mas treine principalmente a mente para o imprevisível.
O caminho muda. E a gente muda junto.
Se for iniciante nessa modalidade e quiser conversar, me aciona AQUI